Aquele era um boteco estranho. No lugar de uma mesa de bilhar, havia um piano, velho, cansado, sem uso. Seu Manoel gostava de explicar aos clientes, em detalhes, a história trazida por aquela relíquia. Um conto que envolvia um perfume, uma mulher estonteante e um homem medroso demais para expor seus sentimentos. Porém, como dono do estabelecimento, utilizava com frequência o bordão “contar a quem solicitar”. Ou seja, se “molhassem” sua mão, em troca, “molharia” seus ouvidos… O caso é que o velho piano trazia consigo lembranças de uma época esquecida, de quando ouvir boa música e cantar era algo natural, do tempo em que seus acordes atravessavam as trilhas do coração e convertiam-se em poesia. Seu Manoel limpou os pequenos copos de vidro, cheios da melhor cachaça da região, empurrou-os sobre o tampo de madeira e encheu cada um até a boca. Pôs-se a contar. “Sabem o piano? Pois é. Ele matou os últimos que se sentaram aqui”. Cuspiram o líquido no chão. Seu Manoel ria como uma criança de sete anos, sabendo que, naquela tarde, encheria os bolsos com estórias inverídicas de um amor perdido; embora, lá no fundo, ainda sentisse falta de Eleonor e sua inconfundível fragrância de jasmim, enquanto tocava concentrado, espalhando poesia pelos dedos, sem qualquer distração. Maldito piano.

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